Digital twin do Brasil de Flávio

O servidor central, localizado algures numa nuvem alugada em Miami, zumbiu com o esforço de processar o maior projeto cibernético da história sul-americana: o Gêmeo Digital do Brasil.

Oficialmente batizado de Estados Unidos do Brasil v2.0, este metaverso era uma simulação perfeita do país, desenhada para testar cenários alternativos. E o cenário carregado nesta simulação era claro: Flávio Bolsonaro havia vencido as eleições e era o Supremo Administrador (ou Presidente) da pátria pixelizada.

Ao fazer o login com os seus óculos de realidade virtual, qualquer cidadão percebia imediatamente que o país tinha mudado. A capital, Brasília, havia sido redesenhada num estilo que misturava a arquitetura de Miami Beach com condomínios fechados da Barra da Tijuca. O Palácio da Alvorada fora substituído por uma imensa mansão digital de renderização hiper-realista, adquirida, segundo os registos da blockchain, com cento e vinte maletas de dinheiro virtual não-rastreável. A moeda oficial não era mais o Real, mas sim a Chocoin, uma criptomoeda cujo valor estava lastreado em trufas de chocolate virtuais e franquias de docerias digitais espalhadas por cada esquina do metaverso.

Flávio, cujo avatar exibia um fato de corte impecável e óculos escuros espelhados mesmo em ambientes fechados, governava através de um grupo de Telegram encriptado diretamente ligado à Constituição do servidor. O seu grande projeto nacional era a “Desburocratização do Pixel”. Qualquer avatar podia construir o que quisesse, onde quisesse, desde que pagasse a devida taxa de condomínio em Chocoins. As praias do Rio de Janeiro digital tinham sido loteadas; o Cristo Redentor agora usava uma faixa publicitária a promover cursos de investimento em NFTs de imóveis na planta.

Mas o algoritmo da simulação exigia equilíbrio, e onde há poder, tem de haver oposição. Foi então que, a partir de um cibercafé clandestino no meta-ABC Paulista, um sinal contornou as firewalls do governo. Um avatar familiar materializou-se na simulação. Vestia uma camisa vermelha impecável, tinha uma barba perfeitamente renderizada e exibia um carisma capaz de sobrecarregar a memória RAM de qualquer placa de vídeo. Luiz Inácio Lula da Silva, com o nome de utilizador Lulinha_Paz_e_Amor_13, acabara de entrar no jogo.

Lula ajustou os óculos de VR no mundo real e começou a explorar o Gêmeo Digital. A sua primeira paragem foi num supermercado virtual no centro da versão codificada de São Paulo. Ao aproximar-se do talho, notou algo aterrador: a picanha não passava de um NFT (Token Não-Fungível) caríssimo, acessível apenas a quem possuísse milhares de Chocoins. O povo, representado por milhares de NPCs (Personagens Não-Jogáveis) com inteligência artificial básica, alimentava-se de pacotes de dados compactados com sabor artificial a salsicha.

Indignado com a desigualdade algorítmica, Lula subiu para cima de um caixote de som virtual, ativou o seu microfone com filtro de eco de comício e começou a discursar para uma multidão de NPCs que pararam as suas rotinas de programação para o ouvir.

“Companheiros e companheiras deste código-fonte!”, a voz de Lula ecoou pelas ruas de fibra ótica. “Eles disseram que iam modernizar o país, mas olhem para isto! Onde já se viu um trabalhador digital ter que minerar criptomoeda dez horas por dia e não conseguir comprar um byte de picanha ao fim de semana? Este metaverso foi feito para os avatares ricos, para quem compra mansão de polígonos em dinheiro vivo! Nós precisamos de um upgrade social. Nós vamos fazer a primeira Greve Geral do Servidor!”

Em poucas horas, a taxa de quadros por segundo (FPS) de Brasília começou a cair drasticamente. Lula tinha conseguido algo inédito na história da computação: sindicalizou os NPCs. Os guardas virtuais recusavam-se a proteger os edifícios, os carteiros digitais pararam de entregar emails e os avatares dos trabalhadores sentaram-se no meio da Avenida Paulista virtual a fazer churrascos de textura de baixa resolução, cantando músicas de protesto que causavam pequenas falhas de áudio no sistema central.

No Palácio da Alvorada, Flávio analisava os gráficos de queda de produtividade num monitor flutuante. O seu Ministro da Defesa Cibernética, um avatar musculado que passava o tempo todo a fazer flexões virtuais, sugeriu dar um “Ctrl+Alt+Del” na manifestação.

“Não podemos simplesmente deletar os caras, talkey?” respondeu Flávio, ajustando os óculos escuros virtuais. “Isso vai estragar a cotação da Chocoin lá fora. Os investidores de Wall Street estão logados a ver-nos. Vou ter que descer lá e resolver isso na base do empreendedorismo.”

O encontro histórico entre os dois titãs da política brasileira ocorreu no coração do metaverso, na Praça dos Três Poderes, que agora era ladeada por outdoors a anunciar empréstimos com taxas de juros amigáveis para quem quisesse abrir a sua própria loja de chocolates na web 3.0.

Lula estava rodeado por uma barreira humana de NPCs sindicalizados, segurando um espeto de carne brilhante que emitia partículas de fumaça digital. Flávio chegou num carro desportivo voador, comprado inteiramente com dividendos de fundos imobiliários do metaverso. A porta abriu-se para cima e ele saiu, com a postura de um CEO prestes a fazer uma apresentação em PowerPoint.

“Presidente Lula,” cumprimentou Flávio, usando um sorriso ensaiado para a captura de movimentos. “Não entendo o motivo de tanto lag. O nosso Gêmeo Digital é um sucesso. A economia está a voar em banda larga. Qualquer um pode ser um investidor de sucesso, basta querer e ter um capital inicial não declarado.”

Lula deu uma gargalhada que fez os servidores da Amazon Web Services na Virgínia darem um pequeno salto de temperatura.

“Meu querido Flávio,” começou Lula, gesticulando amplamente, os seus dedos virtuais a deixarem rastos de luz vermelha. “Vocês criaram um país onde a economia voa, mas o povo continua a andar a pé, e agora com uma diferença: andam a pé e o sapato tem lag! Tu não podes governar um país só com planilhas de Excel e lojas de chocolate. Olha para este companheiro aqui,” disse Lula, apontando para um NPC com cara de cansado que estava em loop infinito a apertar um parafuso invisível. “Ele não sabe o que é uma blockchain. Ele só quer chegar a casa, desligar o processador e ver a novela em HD.”

Flávio tentou argumentar, abrindo um gráfico holográfico no meio da praça. “Mas veja bem, a privatização do sol digital reduziu os custos de renderização do governo em 40%. Se o senhor parar com esta manifestação, eu prometo um voucher de 10% de desconto na compra do primeiro NFT de picanha para cada trabalhador.”

“Voucher?” A voz de Lula engrossou, ativando um código de emergência no sistema de som do jogo. “O povo não quer voucher, meu filho. O povo quer a propriedade intelectual da picanha! O povo quer acesso ilimitado à cerveja gelada no servidor, sem precisar de pagar microtransações por cada gole. Vocês pegaram no Brasil, que é a coisa mais quente, mais orgânica e mais viva do mundo, e transformaram-no num condomínio fechado sem alma.”

O debate continuou durante horas, transmitido em direto para todos os ecrãs virtuais dos Estados Unidos do Brasil. Flávio argumentava que o metaverso permitia a “liberdade absoluta de compração”, enquanto Lula rebatia que liberdade sem acesso ao código-fonte era apenas a escravidão do utilizador final. A retórica de ambos era tão intensa que os motores de física do jogo começaram a ceder. A gravidade falhou momentaneamente em partes do Rio de Janeiro; árvores começaram a crescer ao contrário em Minas Gerais; e no Rio Grande do Sul, a chuva digital transformou-se em chuva de chimarrão com erro de renderização.

Percebendo que a estabilidade do sistema estava em risco crítico, Flávio tentou uma cartada final. Ofereceu a Lula uma pasta ministerial: O Ministério do Abraço Virtual e da Distribuição de Renda em Pixels.

Lula sorriu, recusando a oferta. “A minha política não cabe no teu disco rígido, companheiro. O Brasil não é uma simulação. O Brasil é suor, é samba, é feijão no fogo. Pode ficar com os teus bitcoins e os teus terrenos na nuvem.”

Com um estalar de dedos virtuais, Lula ativou um script de código aberto que os seus hackers em São Bernardo haviam desenvolvido. O script não era um vírus malicioso; era apenas uma linha de código que redistribuía o poder de processamento do servidor de forma perfeitamente igualitária por todos os avatares e NPCs do jogo.

Num piscar de olhos, as mansões de luxo de Brasília desintegraram-se em milhões de pequenos pacotes de dados. Os NFTs de picanha multiplicaram-se exponencialmente, chovendo sobre os NPCs como confetis. O sol privado tornou-se de domínio público, iluminando todo o metaverso sem cobrar taxa de luz. O choque de dados foi tão massivo e democrático que a interface de Flávio congelou. A última imagem do Presidente do Metaverso foi a dele a tentar reiniciar o router imaginário, com um olhar de desespero por detrás dos óculos espelhados.

O servidor do Gêmeo Digital, incapaz de processar tanta igualdade em tempo real, emitiu um aviso de “Erro Fatal: Excesso de Justiça Social na Camada 8”. A simulação desligou-se lentamente, desvanecendo para preto.

No mundo real, nos confins de um escritório espelhado, Flávio Bolsonaro tirou os óculos de VR, respirando fundo e ajeitando a gravata, aliviado por constatar que, na vida real, os condomínios fechados continuavam de pé e as lojas de chocolate ainda vendiam trufas físicas. Longe dali, num sindicato movimentado, Luiz Inácio pousou os seus óculos numa mesa de plástico, pegou num pedaço de picanha verdadeira que chiava na brasa, e sorriu para os companheiros em redor. Afinal, por mais sofisticado que o algoritmo fosse, não havia nada que superasse a textura da realidade.

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