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Poirot em Atenas — O Mistério na Acrópole

Hercule Poirot desembarcou em Atenas numa tarde quente de agosto de 2023.

Vinha de Sevilha, onde proferira uma palestra curiosa sobre a simbologia das borboletas na arte europeia. Precisava, dizia a si mesmo, de repouso absoluto. Instalou-se no majestoso Hotel Grande Bretagne, de frente para a Praça Syntagma. Após um breve olhar de aprovação ao quarto meticulosamente arrumado, entregou-se a uma reparadora sesta, preparando-se mais tarde para o jantar.

Ao descer ao salão do hotel, Poirot chamou inevitavelmente a atenção: o fato impecável, o bigode encerado com precisão quase matemática. O diretor do hotel, homem culto e simpático, reconheceu de imediato o célebre detetive belga. Aproximou-se com reverência e, após algumas palavras de cortesia, convidou Poirot a acompanhá-lo no dia seguinte a uma visita guiada ao Parthenon. Poirot hesitou — férias deviam ser férias! — mas, diante da insistência educada, anuiu com um suspiro discreto.

Na manhã seguinte, Poirot acordou cedo para tomar o pequeno-almoço no hotel. Porém, não escondeu a sua decepção: o café não se comparava ao seu verdadeiro café belga, o pão era insípido, e a fruta demasiado ácida para o seu paladar. “Mon Dieu… em que mundo vivemos, onde o chá é tão mal preparado?”, murmurou, alisando o bigode com gesto desgostoso.

Encontrou o diretor e juntos subiram até à majestosa colina da Acrópole. Poirot, sempre com olho atento aos detalhes, observava tudo: o movimento dos turistas, a poeira dourada que pairava no ar, os guias apressados explicando em múltiplas línguas. Foi então que, ao descansar à sombra de uma coluna antiga, ouviu duas vozes sussurradas, em grego, não muito longe dali.

Os homens gabavam-se de algo ousado: tinham conseguido introduzir no Museu da Acrópole uma peça falsificada, e os mais célebres arqueólogos haviam-na aceitado como genuína. Poirot, sem que eles o percebessem, prestou inteira atenção. O sorriso no rosto dos falsários, vangloriando-se da sua façanha, acendeu imediatamente na mente do detetive a chama do desafio.

Intrigado, Poirot decidiu visitar o Museu da Acrópole ainda nesse dia. Lá conheceu o professor Júlio Abreu, um arqueólogo português apaixonado pelas antiguidades gregas, cuja dedicação era quase monástica. O professor levou-o a ver a peça em questão. Poirot, com o seu olhar de “ordem e método”, notou um detalhe imperceptível: uma simetria demasiado perfeita na decoração lateral, impossível numa peça autêntica envelhecida pelo tempo.

Júlio, após examinar de perto com lupa, não pôde senão concordar: Poirot tinha razão. O belga contou então o que ouvira na Acrópole. Juntos, decidiram levar as suspeitas à Hellenic Police.

Ali foram recebidos pelo agente Konstantinos Papadopoulos, homem jovial, de bigode espesso e estatura robusta. No início, Konstantinos sorriu com condescendência. “Muitas lendas correm por Atenas no verão, monsieur. Não me parece mais do que isso.” Mas Poirot, com firmeza, insistiu. E Júlio apoiou com autoridade científica.

Relutante, o agente pediu parecer ao Procurador-Geral, Isidoros Ntokyakos. Este, homem culto e admirador dos relatos sobre Hercule Poirot, não hesitou. Ao ouvir o nome do detetive, aceitou dar seguimento ao caso. “Monsieur Poirot”, disse com uma reverência discreta, “a chave do enigma talvez esteja em Ioannis Anakin, académico traidor agora preso, suspeito de ainda comandar atividades criminosas do cárcere.”

No dia seguinte, Poirot e Konstantinos dirigiram-se à prisão. Ioannis Anakin, de olhar frio e calculista, mostrou-se hostil e evasivo. Nada revelou — mas Poirot, claro, não se deu por vencido. Notou na lapela da camisola de Anakin um pequeno pin metálico, ornamentado com um símbolo curioso, parecido a uma borboleta.

“Qu’est-ce que c’est?”, murmurou Poirot ao sair. De repente, fez a ligação: vira aquele símbolo na conferência de Sevilha, num amigo italiano, Manfredo Cossuta. Telefone em mãos, ligou para Cossuta, que lhe explicou: tratava-se do emblema discreto da confraria dos apreciadores de vinho Moscatel Graúdo de Setúbal.

Novo fio da meada surgia. Poirot visitou a sede da confraria em Atenas, sob o pretexto de degustar vinhos. Entre os presentes, identificou de imediato um dos homens cujas vozes ouvira na Acrópole. O francês não perde uma nuance, e bastou-lhe a arrogância risonha do falsário para reconhecer o timbre.

Quando o falsário percebeu estar descoberto, iniciou uma fuga pelas ruas estreitas do centro de Atenas. Uma perseguição caótica seguiu-se, entre turistas confusos e vendedores ambulantes. Poirot, naturalmente, não correu: deixou a tarefa para o ágil Konstantinos, que o prendeu após breve confronto.

Interrogado na esquadra, o falsário acabou por confessar. Revelou a localização de um armazém, nos subúrbios de Atenas, onde se encontravam guardadas as peças originais, valorizadas pelas réplicas no museu, destinadas ao mercado negro internacional de arte.

Quando a polícia, guiada pela indicação, abriu o armazém, o espetáculo foi impressionante: estátuas autênticas, vasos antiquíssimos, moedas e gládios romanos. Tudo aguardava transporte secreto para fora da Grécia.

Poirot, em silêncio, ajeitou o bigode, satisfeito. “Mais uma vez, a ordem triunfa sobre o caos”, disse calmamente, enquanto Konstantinos, estupefato, lhe apertava a mão com vigor. Júlio Abreu, emocionado, prometeu que estas peças haveriam de regressar ao lugar certo.

O Procurador Isidoros felicitou-os calorosamente. “Monsieur Poirot, a sua presença em Atenas foi providencial. Sem as suas pequenas células cinzentas, jamais notaríamos o detalhe que desvendou toda a fraude.”

Para celebrar, Poirot foi convidado a uma breve viagem até Creta, acompanhando Júlio, Konstantinos e o próprio Isidoros. Um iate requintado transportou-os num fim de tarde dourado sobre o Egeu.

Na ilha, dirigiram-se ao restaurante Pinakoti, famoso pela sua gastronomia mediterrânea. Entre pratos de peixe fresco, azeitonas temperadas e o inevitável copo de vinho branco — exceção que Poirot aceitou com moderação —, o grupo celebrou não apenas a descoberta, mas a amizade nascida da investigação.

Poirot, olhando o horizonte cretense, permitiu-se sorrir. Durante as férias, como sempre, a tranquilidade lhe escapava — os crimes vinham até ele como mariposas atraídas pela chama. “Eh bien”, pensou, saboreando a sobremesa doce como mel, “talvez seja este o verdadeiro destino de Hercule Poirot: ser incomodado, até nos momentos de repouso.”

Nota: Este texto é ficcionado e todas as coincidências são fruto da imaginação de Juce Nestor, personagem deste blog. A menção a Poirot é uma sincera homenagem a Agatha Christie, provavelmente uma das maiores escritoras europeias da história conhecida no género policial. As fotos decorrem da viagem do autor, Juce Nestor, autor das mesmas, à Grécia em Agosto de 2023.

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