Parti de casa, não sem antes meditar longamente sobre o que vestir. A vida exige decoro, e o decoro é a forma visível da alma. A indumentária é sempre um juízo: perante mim mesmo, perante os olhos alheios.
Três caminhos abriam-se: o formal, o desportivo, ou a imitação do traje tuaregue. O primeiro falaria do respeito pela ocasião. O segundo revelaria leveza, mas talvez vulgaridade. O terceiro, ousadia e quase teatro.
Escolhi — ou antes, permiti que o destino escolhesse por mim — uma sobriedade entre o formal e o cerimonial: um fato leve de linho, austero, que me dissesse “eu não busco parecer, apenas ser”. Rejeitei tanto o desporto, que me diminuiria, como a fantasia de vestir-me tuaregue, que seria caricatura. Que os outros vistam símbolos: eu contento-me com a lisura das linhas.
Em seguida, a questão do transporte. Sines não é já aqui, e como todo o caminho, exige decisão. O automóvel dar-me-ia independência, mas também cansaço. O comboio, embora lento, concederia contemplação. A boleia, submissão aos imprevistos.
Tomei o comboio. As janelas abertas eram quadros sucessivos: campos dourados, árvores imóveis como ideias, e uma sucessão de vilas que pareciam adormecer à passagem. Viajei com um livro em mãos, mas pouco li; preferi ouvir o silêncio interior e o rumor do ferro nos carris.
Chegado a Sines, o ambiente era de expectativa e rumor. As ruas estavam povoadas de jovens, viajantes, peregrinos da música; e eu, sendo um viajante da alma, encontrei-me entre estranhos sem ser estranho. As bancadas tornaram-se o meu lugar: assentei-me, solitário, esperando o concerto como quem espera uma revelação.
O palco permanecia ainda vazio. A noite prometia trazer consigo tanto as notas como a brisa do mar, que já subia suave e salgada. Pensei em como as multidões necessitam sempre de um rito; a música é o rito da contemporaneidade: nela, os homens encontram a ilusão de comunhão.
Quando Tinariwen surgiram no palco, vestindo os trajes do deserto, percebi que não vinham representar, mas ser o que são. O pano azul-turquesa, os turbantes, a dignidade silenciosa: eram menos músicos do que sacerdotes do vento. E quando o primeiro acorde ecoou, senti não um som, mas um areal que se movia dentro de mim.
Os cânticos eram simples, repetidos, como um círculo que regressa sempre ao mesmo ponto. Mas nesse insistir havia verdade: é a areia que se repete na duna, é o vento que nunca se cansa de regressar. A cada nota, intuía-se a solidão das miragens e a dureza da vida nómada.
Esse som, tão distante da nossa tradição, revelava uma mesma inquietação: o homem diante do destino, o homem que caminha e não encontra repouso. Eu, que sempre procurei pela harmonia apolínea, encontrei beleza nesse deserto rítmico onde o caos e a ordem se confundem.
No avançar da noite, entreguei-me a uma breve embriaguez; não apenas do que bebi, mas também da música que me envolvia. O corpo já não estava nas bancadas de Sines, mas em dunas infinitas. Os olhos viam não guitarras, mas estrelas frias no céu profundo de África.
Foi então que, no acaso do destino, me cruzei com alguém da produção do espetáculo. Gesto prático, de rosto cansado e alegria discreta. Eu, meio embriagado, senti necessidade de partilhar o que me ia na alma. Disse-lhe que aquela música não era mero entretenimento: era destino feito som, era exílio transformado em canto.
Ela sorriu, talvez sem entender. Mas insisti: expliquei-lhe que Tinariwen não cantavam apenas o Saara, mas cantavam a condição humana: a aridez, a luta, e a dignidade solitária. Disse-lhe que, naquela noite, em Sines, eu próprio me senti parte nómada. E acrescentei, como quem se confessa:
“Tudo passa, mas esta música, por instantes, suspendeu o curso do tempo”
Fontes:
https://www.tinariwen.com/About
https://www.youtube.com/watch?v=Q_23U3f-m5A&t=83s































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