Seis meses antes de Sevilha cair, já o sul da Península Ibérica sentia o peso dos cascos.
Em Portugal, o século XIII avançava com a lentidão própria de quem sabe que a guerra não é um episódio, é um modo de vida. No inverno de 1247, quando a chuva tornava os caminhos do Alentejo um lamaçal e os rios cresciam sem pedir licença, formavam-se hostes que sabiam ao que iam: cruzada, sim, mas também política, sobrevivência e ambição.
Entre os cavaleiros portugueses destacava-se Paio Peres Correia, mestre da Ordem de Santiago, homem duro, moldado no combate desde o Algarve até à Estremadura. Não era um nobre de salão. Era um cavaleiro profissional, experiente em cercos, que trazia consigo homens treinados para resistir à fome, ao calor e à espera. A sua presença em Sevilha não foi decorativa: foi estrutural.
Ao seu lado seguia Martim Gil de Riba de Vizela, rico-homem do norte do reino, ligado à aristocracia portucalense que orbitava entre Braga e Coimbra. Vinha com cavalo próprio, escudeiros e recursos, consciente de que estas campanhas eram uma forma de consolidar estatuto. A guerra, para estes homens, era também uma linguagem social: quem não combatia, desaparecia da memória política.
A marcha começou no verão de 1247. Os cavaleiros portugueses atravessaram terras conhecidas e hostis, dormindo em palheiros, tendas improvisadas ou sob o céu aberto. Vestiam cota de malha, túnicas largas com as cores da ordem ou da linhagem, capas grossas para as noites frias. O elmo era proteção e identidade. A espada, uma extensão do corpo. Comiam pão duro, queijo, carne salgada e bebiam vinho aguado — alimento suficiente para manter um corpo vivo e um espírito disciplinado.
Outro nome presente no cerco foi Aires Peres Viegas, cavaleiro de menor linhagem, mas veterano das campanhas do Baixo Alentejo. Representava a nobreza intermédia portuguesa: homens sem grandes senhorios, mas com capital militar. Eram estes que sustentavam o cerco diário, as escaramuças, as vigílias noturnas junto às muralhas, enquanto os grandes senhores negociavam posições e recompensas.
Quando o cerco apertou, já no calor abrasador do verão andaluz, os portugueses estavam integrados nos dispositivos ofensivos de Fernando III. Cavavam trincheiras, protegiam engenhos de cerco, participavam em ataques coordenados às portas e muralhas. Gonçalo Mendes de Sousa, ligado a uma das casas mais influentes do reino, destacou-se na coordenação de homens de armas, trazendo experiência de campanhas anteriores contra praças fortificadas muçulmanas.
Dormia-se pouco. O chão era duro, a humidade constante, os insetos omnipresentes. Muitos cavaleiros dormiam armados, por precaução e hábito. A proximidade da morte era normalizada. A fé manifestava-se em orações curtas, não em discursos. A cruz que carregavam no escudo era menos teológica do que prática: significava pertença e justificação.
No outono de 1247, com a fome a instalar-se dentro da cidade, aumentaram as tentativas de ruptura por parte dos defensores muçulmanos. Aqui, os contingentes portugueses voltaram a destacar-se pela agressividade controlada. Não eram impulsivos, mas eficazes. A crónica militar mostra-os como força de choque, especialmente em respostas rápidas a saídas inimigas.
Socialmente, estes cavaleiros provinham maioritariamente da nobreza média e alta, mas o cerco nivelava diferenças. No lamaçal diante de Sevilha, o conde e o cavaleiro sem título comiam do mesmo pão duro. A distinção fazia-se pela coragem e pela utilidade, não apenas pelo nome.
Quando, em novembro de 1248, Sevilha finalmente se rendeu, os cavaleiros portugueses estavam lá — cansados, feridos, muitos doentes. Receberam recompensas, alguns fixaram-se em terras andaluzas, outros regressaram a Portugal com prestígio reforçado. Paio Peres Correia consolidaria ali a sua reputação como um dos grandes líderes militares peninsulares do século XIII.
O cerco de Sevilha foi, para Portugal, mais do que uma campanha externa. Foi a projeção de uma elite guerreira que já tinha definido o território do reino e agora se afirmava no xadrez ibérico. Homens de ferro, vestidos de lã grossa e aço, alimentados pela guerra e pela memória que sabiam estar a construir.
Hoje podemos perceber que talvez não tenham sido heróis românticos. Foram profissionais da guerra medieval. E talvez seja precisamente isso que os torna históricos.
Fontes:
https://repositorio.ulisboa.pt/entities/publication/59a49644-9036-4edc-a969-ccfca5b62eb5
https://repositorioaberto.uab.pt/entities/publication/322fc6de-6f48-4549-a623-d541a204ce22







































Deixe um comentário