Edgar Tires trabalhava no balcão de um serviço público, um daqueles gabinetes sombrios rodeados por pilhas de pastas com etiquetas rasgadas e carimbos secos de tanta repetição mecânica.

Desde que surgira o programa Simplex, toda a repartição parecia suspensa num fio de ameaça: a digitalização prometia fazer desaparecer com um clique, o trabalho de décadas de papelada, mas, paradoxalmente, os papéis multiplicavam-se.
O seu labor consistia em ordenar documentos, desagrafar folhas agrafadas de forma descuidada, voltar a agrafar, e sobretudo decifrar datas. Muitas destas estavam rasuradas, quase ininteligíveis, o que o obrigava a ligar a três repartições distintas para validar a preciosa informação. Estas chamadas prolongavam-se em filas de espera telefónica com loops de música clássica, que inconscientemente trauteava no seu cérebro, onde vozes distantes lhe pediam para aguardar, como se a vida lhe fosse escoando a cada minuto perdido.
Apesar da inutilidade aparente da função, Edgar sentia um medo viscoso de desaparecer com a digitalização. Perder o trabalho seria como perder a última âncora que o prendia ao mundo. O horror da inutilidade pesava-lhe mais do que a própria inutilidade.
O diretor surgia na sala ao acaso, de maneira sempre inesperada. Bastava ouvir o ranger da porta para o corpo de Edgar estremecer de pânico. Umas vezes fugia para a casa de banho, trancando-se em silêncio; outras rastejava sob a secretária, como um animal que procura um esconderijo escuro; e, por vezes, corria por corredores intermináveis, cujas paredes esburacadas deixavam ver dossiers e destes folhas caiam e acumulavam-se nas nojentas carpetes, confundindo-se com essas em montes pastosos.
A rotina prosseguia no almoço. Todos os dias, Edgar dirigia-se ao restaurante barato da esquina, onde comia o menu executivo de 7,5€. Sempre sopa, prato, arroz doce e café. Quando calhava caril de frango, sentia uma ânsia cruel, mas comia em silêncio. Não ousava protestar, porque sentia que ofender a cozinheira corpulenta – de buço nunca aparado, dona de um odor pegajoso e entranhado – seria como assinar a própria condenação.
No regresso, apanhava o metro. Era muitas vezes empurrado, espezinhado na pressa anónima de passageiros apressados. Nunca se queixava. A sua voz parecia presa nos pulmões: apenas emitia um som sufocado que ninguém ouvia.
Sem perceber como nem quando, começou a desaparecer. Primeiro eram os acenos dos colegas que não lhe respondiam, depois os olhares da funcionária do café que passavam através dele como se fosse de fumo. Mas Edgar, mergulhado no automatismo dos carimbos e das chamadas intermináveis, não saboreava a mudança. A sua rotina já o tornara quase invisível, sem que ninguém notasse.
O fim de semana não trazia descanso. Sozinho, sem amigos, sem mulher, sem filhos, refugiava-se no Parque da Quinta das Conchas e dos Lilases. Levava consigo uma sandes de peixe enlatado embrulhada num guardanapo de pano oleoso. Sentava-se a observar crianças que corriam, casais enlaçados, rodas de amigos no relvado. Sempre de longe, sempre em silêncio. A sensação de insignificância impedia-o de acreditar que pudesse algum dia fazer parte daquilo.
À medida que os dias passavam, a visibilidade de Edgar diminuía. A voz quase não lhe saía da boca, os ténis não faziam eco no chão, e as portas pareciam abrir-se sozinhas quando ele passava. Aos poucos, deixou de ver reflexo nos vidros do funesto edifício onde desenvolvia a sua carreira.
Quando finalmente se tornara invisível, um riso contido escapou pela primeira vez em muitos anos. Descobrira uma paz perturbadora: ninguém mais o olhava, ninguém mais o interpelava. O diretor podia surgir dez vezes por dia que ele permanecia imóvel, intocado.
No entanto, Edgar continuava a chegar a horas ao gabinete todas as manhãs, cumprindo religiosamente os procedimentos: desagrafava, carimbava, ligava para três repartições, como se a ausência de olhos sobre o seu corpo fosse apenas mais uma nuance do trabalho.
Numa daquelas tardes ao regressar do restaurante, viu sentado na sua cadeira um homem de ombros curvados, igualmente invisível. Não distinguiu logo o rosto, mas sentiu, por uma estranha familiaridade, que não estava sozinho.
O outro sorriu-lhe, com um sorriso baço. Conversaram longamente, em silêncio, apenas com gestos mínimos que Edgar parecia compreender. Foi nesse instante que se deu conta: poderia ter estado a falar com quem quer que fosse. A figura esvaía-se em névoa, deixando-o a pensar que talvez fosse apenas fruto da sua mente cansada.
Lentamente, aceitou a ideia: não conhecera ninguém invisível, apenas criara um outro para preencher o vazio da sua ausência. E descobriu um alívio paradoxal: até a sua solidão precisava de lhe mentir para se manter viva.
Na manhã seguinte, voltou ao trabalho como sempre. O balcão vazio acolheu-o em silêncio, e Edgar Tires, invisível e sereno, sentou-se diante de uma pilha interminável de papéis que apenas uma máquina, um computador, distante como um destino inevitável, poderia dispensar.



























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