Há dias, no meio de uma multidão portuguesa organizada segundo a tradicional geometria nacional — uma fila aparentemente reta que, observada com rigor científico, revela sete subfilas paralelas e um primo que “só veio fazer uma pergunta” — surgiu Álvaro Siza Vieira.
Não surgiu propriamente; apareceu. Como aparecem os edifícios que desenha: discretamente, sem fazer barulho, e de tal forma integrados na paisagem que metade das pessoas só percebeu quem era depois de ele já lá estar há vinte minutos.
Enquanto o país discute habitação, rendas, licenciamentos e o mistério metafísico de como uma casa de 70 metros quadrados passou a custar o equivalente ao orçamento de uma pequena monarquia europeia, Siza manteve a serenidade de quem já viu modas arquitetónicas nascer, morrer e regressar com outro nome. Questionado por vários curiosos, respondeu com uma das suas frases mais conhecidas: “A arquitectura não transforma nada. Transforma-se a realidade.” Uma afirmação que, em Portugal, soa particularmente ousada, porque a realidade nacional costuma resistir heroicamente a qualquer tentativa de transformação.
Pouco depois, alguém lhe perguntou o que pensava do estado atual das cidades. Siza observou o horizonte, uma grua, duas obras paradas e um prédio cuja varanda parecia ter sido desenhada por uma reunião de condomínio particularmente criativa. Então recordou outra ideia frequentemente associada ao seu pensamento: “O cliente é o primeiro arquitecto.” Metade da assistência concordou; a outra metade começou imediatamente a culpar o cliente por tudo o que aconteceu à construção portuguesa desde 1987.
O mais extraordinário, porém, não é a sua obra nem a sua reputação internacional. É o facto de, numa época em que toda a gente tem opinião instantânea sobre tudo, Siza continuar a praticar uma arte revolucionária: pensar antes de falar. Em Portugal, isto coloca-o numa categoria profissional praticamente tão rara como habitação acessível.
No final, a multidão dispersou. Ficaram as conversas, as preocupações com as casas e uma conclusão inevitável: enquanto o país procura desesperadamente um plano urbanístico para o futuro, Siza continua a fazer o que sempre fez — desenhar linhas direitas num território que insiste em funcionar em curvas.



























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