Há freguesias que têm ruas. A Penha de França tem debates. Debates sobre estacionamento, debates sobre árvores, debates sobre obras, debates sobre trotinetas, debates sobre turistas, debates sobre os debates.
Em certas zonas da freguesia, é possível ouvir três opiniões contraditórias antes de atravessar uma passadeira.
No centro desta delicada engenharia social encontra-se a presidente da Junta de Freguesia da Penha de França. Figura de proximidade, presença constante nas iniciativas locais e especialista involuntária na arte de responder simultaneamente a moradores indignados, comerciantes preocupados e cidadãos que descobriram às duas da manhã uma nova vocação para o urbanismo.
A freguesia vive o seu estado natural: uma mistura de bairro tradicional lisboeta, laboratório demográfico europeu e assembleia permanente de condomínio em escala metropolitana. A presidente fala frequentemente de participação, proximidade e comunidade. Conceitos nobres que, na prática, significam receber mensagens sobre um caixote do lixo deslocado 37 centímetros da posição considerada constitucionalmente correta por um residente da Rua Morais Soares.
A certa altura, alguém pede mais estacionamento. Outro exige menos carros. Um terceiro quer mais ciclovias. Um quarto quer menos ciclovias. Um quinto quer uma ciclovia com estacionamento. E um sexto sugere uma solução inovadora: criar uma comissão para estudar o impacto psicológico das ciclovias no estacionamento.
A Junta continua a fazer o que pode, enquanto Lisboa prossegue a sua missão histórica de tentar colocar uma cidade do século XXI dentro de ruas desenhadas para carroças.
O fenómeno mais impressionante é que a Penha de França consegue concentrar praticamente todos os temas nacionais num raio de poucos quarteirões: habitação, imigração, mobilidade, comércio local, turismo e, inevitavelmente, pessoas que garantem conhecer uma solução simples para tudo. Normalmente apresentada em letras maiúsculas num grupo de Facebook às 23h47.
No fundo, isto prova uma velha teoria política portuguesa: governar um país é complicado. Governar uma freguesia onde toda a gente se conhece, se encontra no café e comenta a recolha do lixo com o detalhe de uma cimeira da NATO é uma modalidade radical.








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