Chego ao magnífico Palácio de Cnossos em Creta – sim, eu, o historiador amador um tanto resmungão – e de imediato sou confrontado com a massa humana de turistas que se aglomeram por cada escadaria, por cada pilar minóico restaurado, como se tudo fosse um parque temático.
É irritante e fascinante ao mesmo tempo: irritante, porque o silêncio que eu almejava para escutar as pedras não existe; fascinante, porque estas pedras têm tanto para contar. A construção, reconstruída e defendida por gerações, permanece como um dos mais belos testemunhos da civilização minóica , do poder e do ritual, dos corredores labirínticos onde antes, diz-se, o mítico Minotauro poderia ter espreitado.
À medida que subo pela colunata vermelha – as colunas invertidas, o capitel mais largo no topo, as proporções que encantam o olhar atento – sinto a grandiosidade de um palácio pensado não apenas para habitar, mas para exibir-se. Aqui não somos meros turistas passivos: pisamos sobre estruturas que há milénios viram danças ritualísticas, celebrações e vida quotidiana. Todavia, o número de lentes fotográficas e a coreografia de selfies perturbam a atmosfera que gostaria de manter intacta. Mas enfim – o mundo mudou, o turismo é inevitável, e eu admito que também trago a minha câmara.
No andar superior, num pátio aberto onde a brasa do sol cretense incide sem misericórdia, detenho-me a admirar os frescos – o famoso “Príncipe dos Lírios”, as figuras em movimento, o vermelho-lirio a florescer nas paredes. A cor resiste ao tempo. Isso, pelo menos, consola-me: resta a beleza autêntica, o facto de que a mão humana antiga criou arte para além do utilitário. Mas claro: a multidão que se aproxima, os grupos barulhentos, as conversas em vários idiomas – lá estou eu outra vez a bufar – dificultam o momento de contemplação pura que ambicionei. Ainda assim, a beleza impõe-se.
Volto às câmaras de cantaria, aos átrios, à famosa “Sala do Trono” – não sem antes lamentar que tantas zonas estejam delimitadas por fitas ou afastadas pela conservação – e penso: quantos visitantes percebem realmente que este lugar foi epicentro de poder, não apenas ruína bonita para fotografia? E quantos percebem o risco de a sobrecarga turística diminuir o valor do sítio? Há que ponderar, sem fanatismos, que a preservação depende também de moderação. O palácio não é parque temático; é relicário. Ainda assim, eu próprio me contorno entre os turistas, olho para o chão de mosaico, ignoro por momentos o ruído, e deixo-me impressionar pelo saber antigo.
No final da visita, parado junto à escadaria principal, olho para o céu de Creta, para a montanha ao longe, para o mar que já se vislumbra – e digo: apesar do turismo, da bagunça, da multidão, este lugar merece-o. A estrutura monumental, a luz que banha as colunas, o silêncio interior que se toca entre o som dos passos – tudo isso aquece o coração do historiador amador.
E sim, reconheço: estou a fazê-lo como turista também.
Aceito-o.
O Palácio de Cnossos é belo.
E eu, apesar da irritação com tanta selfie, sou mais um que se deixa encantar.
























































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