Pôr do sol entre o Sheraton e o FPM41, paisagem para reflexões

Erguido em 1972, com 92 metros de altura, o hotel Sheraton tornou-se um símbolo da modernidade e do poder internacional no coração lisboeta.

Desenhado por Fernando Silva, ousou sonhar com duas torres gémeas – os seus famosos “Edifícios Aviz” – num tempo em que Lisboa vivia ainda sob a influência de uma cidade baixa, de colinas tradicionais. A ambição vertical perturbou a tradição citadina; alguns lisboetas apelidaram-no ironicamente de “a oitava colina de Lisboa”.

Historicamente, este edifício representou uma viragem: não apenas uma nova marca arquitetónica, mas um momento em que Lisboa se abriu mais decididamente à hotelaria internacional, projetando-se como destino cosmopolita. O hotel traduzia o crescendo da ambição portuguesa do pós-guerra, uma economia que se modernizava e ansiava por ser parte do circuito global. Foi inaugurado oficialmente em novembro de 1972, numa cerimónia simbólica que marcou a entrada de Lisboa numa nova era.

Volumetricamente, a torre do Sheraton ocupa um lugar de proeminência: é alta, esguia, impõe-se numa cidade de cumes baixas. Tal volumetria não é apenas função – é postura sociopolítica. O edifício tornou-se emblema, um farol vertical de luxo e aspiração, a contrariar a topografia tradicional de Lisboa mas ao mesmo tempo tentando dialogar com a cidade, sublinhando uma nova narrativa urbana.

Sempre tentou ser mais que um hotel: o restaurante “Panorama”, no topo, tornou-se local de encontro social, de elite, de visões sobre a cidade. O lobby, com as ninfas do Tejo em relevo e as paredes de mármore que formam quasi puzzle, evocam Lisboa: terra ligada ao rio, à mitologia, à luz.

O Sheraton desempenhou um papel quase simbiótico: por um lado, atraiu turistas de elite, executivos internacionais, contribuindo para a globalização cultural de Lisboa; por outro, empregou centenas de lisboetas, sendo parte integrante da paisagem social da cidade. No dizer de um dos seus primeiros diretores-gerais, “a hotelaria portuguesa pode dividir-se em duas eras: antes do Sheraton e depois do Sheraton”.

O Edifício FPM41, erguido muito mais recentemente, mas igualmente carregado de significado simbólico e urbano localiza-se na Avenida Fontes Pereira de Melo, no cruzamento com a Avenida 5 de Outubro. O edifício de escritórios representa a fusão de funções modernas – trabalho, comércio, espaço público – numa arquitetura pensada para o século XXI.

No plano histórico, o FPM41 não surge no vácuo: insere-se numa operação urbanística que redesenha esta parte das Avenidas Novas, reconectando os alinhamentos do velho boulevard do século XIX com a Lisboa moderna.
A equipa de Barbas Lopes Arquitectos, com Diogo Seixas Lopes e Patrícia Barbas ao leme, assumiu desde o início que este edifício deve ser “atemporal, claro e flexível”.

O volume manifesta-se como dois blocos entrelaçados: um com 17 pisos voltado para a Avenida Fontes Pereira de Melo e a Rua Latino Coelho, o outro com 13 pisos voltado para a Avenida 5 de Outubro. Esta expressão dual ressoa como uma tessitura urbana: um volume alto que dialoga com os edifícios vizinhos, outro recuado que abre um espaço público, uma praça fluida que reconcilia os diferentes ritmos da cidade.

A “base recuada” notada por críticos e projetistas é poderosa: ao tocar o solo, o edifício alarga-se num lobby protegido por vidro, criando um limiar entre a esfera privada corporativa e o domínio público. Este gesto de retirar a massa do edifício da esquina para abrir espaço para peões é uma intervenção teórica moderna: não monopoliza o terreno, mas partilhand-o, devolve-o à cidade como lugar de (re)encontro.

A praça e os jardins adjacentes foram criados para “redefinir elementos e cenários que ligam o edifício à sua envolvente” num momento de releitura simbólica: a topografia de Lisboa, os alinhamentos históricos, as diferenças da vizinhança, como que convergem num gesto de reconciliação entre passado e futuro.

O FPM41 representa a arquitetura do serviço contemporâneo: edifícios de escritórios como “máquinas” para produzir valor, para sustentar economias baseadas no conhecimento, mas também para projetar identidade urbana. A sua gestão técnica – conforto ambiental, desempenho energético, ventilação natural, acústica – revela um compromisso com a sustentabilidade e com as condições de trabalho, que ecoam valores de responsabilidade social no tecido empresarial lisboeta.

Tentando aproximar os dois edifícios: o Sheraton é um monólito da modernidade (passada), um farol vertical que anunciava a Lisboa internacional dos anos 70; o FPM41 é uma escultura urbana contemporânea, uma ponte entre a tradição das avenidas e a lógica empresarial do século XXI. Estes volumes dialogam – o Sheraton antigo, o FPM novo – e simbolicamente: ambos marcam a ambição de Lisboa, cada um no seu tempo, cada um com uma visão distinta de como a cidade cresce, se reinventa e serve a sociedade.

Duas narrativas simbólicas: Sheraton, o “arranha-céus” que transformou a paisagem lisboeta e encarnou a globalização dos anos de otimismo, e o FPM41, uma torre de escritórios que reconcilia densidade, natureza pública e eficiência técnica, afirmando um novo paradigma urbano.
Juntos, são marcos de uma Lisboa que compreende o passado e o futuro.

Fontes:
https://restosdecoleccao.blogspot.com/2016/11/edificio-aviz-e-sheraton-hotel.html
https://amensagem.pt/2023/08/04/50-anos-hotel-sheraton-projeto-polemico-fernando-silva-tornou-oitava-colina-lisboa/
https://restosdecoleccao.blogspot.com/2025/02/lisboa-sheraton-hotel.html
https://www.academia.edu/26438699/FPM_41_AVENIDA_FONTES_PEREIRA_DE_MELO_39_A_43_E_AVENIDA_5_DE_OUTUBRO_2_A_4_OPERA%C3%87%C3%83O_URBAN%C3%8DSTICA_DE_EMPREENDIMENTO_IMOBILI%C3%81RIO_DESTINADO_A_ESCRIT%C3%93RIOS_E_COM%C3%89RCIO_EXIG%C3%8ANCIAS_DE_DESEMPENHO_PARA_A_FACHADA_DO_ED%C3%8DFICO_FPM41
https://gyptec.eu/documentos/JornalGyptec_N5.pdf
https://www.fundacaoplmj.com/pt/fundacao/publicacoes/fpm-41-sobre-o-projeto-de-arquitetura-da-torre-fpm/64/

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