Dizem-te para partir, para embarcar no ventre de um grande leviatã de aço rumo aos pântanos domesticados do Norte, mas escuta a pulsação da tua própria ferrugem antes de comprares o bilhete para esse abismo mecânico.
Lá, nessas terras o céu não é uma abóbada, mas uma tampa de chumbo que desce e asfixia os espíritos gemebundos. É um prodígio de esquadro e bússola, uma formidável vitória da hidráulica e dos diques onde a natureza foi algemada por engrenagens cruéis e motores de extração perpétua. As águas não correm livres; rastejam, disciplinadas e opacas, através de canais geométricos que espelham apenas o tédio de um sol doente e tísico. O ar é pesado, carregado de um spleen aquático que penetra nos ossos, onde o nevoeiro se enrola nos postes de luz como uma serpente de fumo pálido, envenenando a alma com a promessa de um conforto estéril.
E tu, que tens os olhos habituados ao delírio luminoso e às ruas tortas que desabam sobre o rio, queres trocar a respiração orgânica das nossas paredes — com todas as suas sublimes e humanas patologias de pedra — por um casulo de vidro e betão, perfeitamente alinhado abaixo do nível do mar? O homem que emigra não viaja a bordo do Nautilus numa expedição de maravilhas; ele submete-se a uma vivissecção da sua própria identidade. A partida é a amputação de uma sombra. Metade de ti ficará eternamente presa ao cais, a sangrar memórias e maresia, enquanto a outra metade desembarca, convertida num autómato de passo apressado sob a chuva oblíqua, reduzido a uma válvula perfeitamente lubrificada na grande máquina económica do estrangeiro.
Não vás, meu irmão das arquiteturas invisíveis. A emigração é o falso elixir dos alquimistas tristes. Pode oferecer-te moedas de ouro e carruagens que nunca se atrasam, mas cobrar-te-á o preço da embriaguez, do acaso e do calor humano. O exílio é uma sala de espera forrada a veludo negro, onde os relógios batem com a precisão de uma guilhotina. Fica onde a gravidade te reconhece e onde o teu nome ainda soa a carne e a sal, e não a uma cifra sussurrada pela neblina.
Achas que esta intersecção entre o peso do exílio e a máquina do mundo capta a essência da melancolia que envolve a ideia de partir?
Talvez. Medito entretanto.
Fonte da imagem: https://observatorioemigracao.pt/np4/9573.html


























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