Às 07:30 em ponto – não 07:31, não 07:29 – Ilídio Silves já estava sentado no autocarro, coluna direita, pasta de documentos pousada ao colo, revendo mentalmente os relatórios técnicos que pretendia ler ainda antes da primeira bica.
Enquanto pensava, fazia pesquisas de termos e gráficos em documentos PDF a solavancos do trânsito ainda morno.
A disciplina é um activo invisível, retorquia para si, algo que não consta explicitamente no contrato coletivo de trabalho mas que, na sua interpretação minuciosa, influencia decisivamente a progressão para o patamar remuneratório dos 3000€, essa “Ilha dos Amores” das carreiras profissionais.
Identificara para si três condições que considerava inegociáveis: assiduidade sem falhas registáveis – check mental, apresentação pessoal irrepreensível (1 fato por dia, 7, de verão, inverno e meias estações, 28 fatos, sapatos polidos, cabelo aparado, tudo ferramentas de trabalho técnico-administrativo, ou administrativo a colocar-se de bicos dos pés como técnico a mostrar os sapatos ou o relógio e respetivas unhas na entrega de um entregável) e total disponibilidade para tarefas extraordinárias sem questionamento, porque na verdade, do contrato coletivo de trabalho só lhe interessava os valores da tabela salarial. E foi precisamente essa terceira condição que, ironicamente, começou a corroer-lhe o sistema nervoso nesse dia, essa flexibilidade profissional militante.
Quando, já perto do Largo de Santa Bárbara, o autocarro abrandou de forma anómala, Ilídio sentiu uma perturbação quase física na sequência lógica da sua manhã. Olhou pela janela e viu o aparato: veículos vermelhos, luzes intermitentes, bombeiros a coordenar-se com gestos firmes, pessoas acumuladas num passeio estreito junto a um edifício devoluto marcado por grafitis. Sem querer ou talvez querendo, mas sem reconhecer – começou a tirar fotografias, registando tudo com precisão documental, como se aquilo pudesse vir a ser solicitado numa auditoria futura à sua própria conduta cívica, o cidadão profissional.
Mas o pensamento intrusivo instalou-se: “E se me atraso? E se o atraso é registado na aplicação da intranet? E se neste minuto, neste único minuto, me afasto definitivamente da progressão salarial? Que será de mim sem a minha merecida carreira.”
Já no Banco, minutos depois, a normalidade aparente não resistiu ao detalhe mínimo: ao pousar a chávena, um ligeiro tremor impercetível para terceiros, mas catastrófico para si – fez com que o café se derramasse e sobre as calças recaíssem… 1 gota de café, 3 milímetros de perímetro, um poço de aflição.
Para qualquer outro funcionário seria um acidente banal, de facto uma falha estrutural no projecto de vida de Ilídio. Calças manchadas eram incompatíveis com a segunda condição, enumerava as ideias na sua cabeça aquecida pela chama da preocupação. Sentiu o coração acelerar, não pela nódoa em si, até porque as calças picam as pernas nas costuras, mas pelo que esta nódoa simbolizava: todo um corolário de descontrolo, desleixo, regressão profissional. Tentou limpar com papel, depois com água, piorando marginalmente a situação par 7 milímetros de perímetro, o que apenas agravou o ciclo de auto-recriminação. “Um quadro intermédio não permite isto. Um candidato a 3000€ não permite isto.”
Foi então que o chefe, com a naturalidade de quem distribui tarefas logísticas, lhe disse: “Ilídio, vá lá fora receber os bombeiros, vêm agora inspecionar o edifício.”
A frase caiu como uma sentença.
Ir lá fora implicava exposição pública, luz natural, comparação implícita com a imagem de profissional que Silves vinha a construir há anos.
E, ainda por cima, bombeiros – figuras de autoridade operacional, de presença física impecável, de ação pronta e imediata. Ilídio desceu as escadas num estado limítrofe entre a obediência e o colapso, enquanto mentalmente reorganizava o cenário: “Talvez consiga encaminhá-los pelas traseiras… menos visibilidade… menor impacto reputacional… Limpos… Limpos… 3000€ limpos…”.
Mas no exterior, a realidade não obedecia. Os veículos alinhavam-se na frente do edifício, exatamente onde a luz incidia com mais intensidade. As mesmas imagens que alguém um passageiro anónimo no autocarro registava naquele instante, mostravam bombeiros a agir com método, enquanto Ilídio, num momento de rutura total entre a norma interna e o mundo real, já sem capacidade de gerir a incongruência, se encontrava em cuecas, as calças inutilizadas pelo café, a gesticular de forma frenética mas curiosamente organizada: apontava direções, desenhava trajetórias no ar, insistia numa lógica de circulação alternativa que só fazia sentido na sua cabeça exausta.
Cada gesto era simultaneamente um pedido de controlo e uma confissão de perda total. E, algures, no trânsito lento, alguém continuava a tirar fotografias, fixando para sempre o instante em que a rotina perfeita de Ilídio Silves colapsou com a mesma inevitabilidade silenciosa de um prédio devoluto.






























Deixe um comentário