Sítio arqueológico do Palácio de Cnossos, em Creta, Grécia

O abade Dom Lourenço chegou ao sítio de Cnossos pouco depois da hora tersa, acompanhado de dois guias cretenses que o olhavam com divertida curiosidade: não era comum ver um eclesiástico de batina negra, vindo de tão longe, com o chapéu desabado e o rosto ardendo de excitação diante de um amontoado de ruínas poeirentas.

Observou primeiro o vasto adro de pedra irregular, onde o sol caía a prumo e os montes ao fundo, de um azul pálido, pareciam guardar em silêncio o segredo daquela antiga residência dos reis minóicos.

Aproximando‑se mais, reparou nas grossas muralhas de pedras de várias cores, umas esbranquiçadas como ossos, outras vermelhas como tijolo recém‑saído do forno, ajustadas sem argamassa visível, num engenho que o deixou maravilhado com a arte dos antigos. Os blocos, alguns enormes, apresentavam‑se gastos, quebrados em esquinas, e no entanto mantinham ainda uma certa majestade, como se a mão que os dispusera tivesse querido imitar o próprio desordenado da natureza.

Dom Lourenço desceu então por um caminho estreito, ladeado por cordas rudes que continham os curiosos, e deu com um emaranhado de compartimentos cavados na terra, cujas paredes de barro cozido se erguiam a meia altura, em tons quentes de ocre e ferrugem. Parecia‑lhe caminhar pelo interior de um colmeiro despedaçado, onde cada célula, aberta ao céu, testemunhava uma função antiga e esquecida.

Numa dessas divisões, de planta rectangular, chamou‑lhe a atenção um piso mais rebaixado, como se fosse um tanque seco ou corredor afundado, com degraus toscos nas extremidades. Imaginou que talvez ali se tivessem guardado ânforas de azeite ou de vinho, alinhadas em silêncio, perfumando o ar com o seu aroma antigo, enquanto escribas, em tábuas enceradas ou argila fresca, registavam contas e inventários.

Nas paredes desse espaço notou pequenos vãos quadrangulares, como nichos escavados, ora mais altos, ora quase ao nível do chão, alguns agora entupidos de terra e pedrinhas. Ao vê‑los, o abade pensou em nichos votivos para pequenas imagens de deuses domésticos, ou talvez simples aberturas para encaixar vigas de madeira, sustentando pavimentos superiores que o tempo e o fogo tinham consumido.

Seguiu adiante e, ao virar um ângulo, surpreendeu‑se com a engenhosa disposição de vigas alinhadas sobre um vão profundo, formando uma espécie de passadiço suspenso. As madeiras, recentes, denunciavam a mão moderna dos restauradores, mas imitavam, tanto quanto possível, a leveza das antigas estruturas, que teriam permitido o trânsito seguro sobre depósitos e caves onde a população palaciana escondia o seu excedente de riqueza.

Noutro sector, o chão mostrava fendas secas, como uma pele ressequida, testemunhando a longa ausência de água, e o abade, que conhecia bem os tratados de Vitrúvio, interrogou‑se sobre o sistema de drenagem e abastecimento que estes povos deviam ter usado para alimentar banhos, fontes e cisternas. Considerou que, se em tempos tão recuados já haviam dominado a arte de conduzir as águas, então a presunção dos modernos engenheiros europeus bem poderia ser temperada por alguma humildade.

Erguendo o olhar, deixou que o panorama se abrisse: uma sucessão labiríntica de divisórias, ora de pedra, ora de barro, dispostas em patamares irregulares, sugerindo andares outrora sobrepostos, escadas de madeira ou de pedra hoje desaparecidas, pátios internos onde, quiçá, se dançavam ritos misteriosos à sombra de colunas vermelhas. O abade sorriu ao pensar que o mito do labirinto de Minos talvez não fosse mais que a memória distorcida desta arquitectura complexa, em que qualquer estrangeiro se perderia sem guia.

Junto a um troço mais elevado da muralha, onde as pedras se acumulavam em grandes blocos cinzentos e alaranjados, Dom Lourenço passou a mão pela superfície rugosa e fria, sentindo, sob a ponta dos dedos, a erosão de milénios. Aquela textura irregular dava conta de terramotos, chuvas e ventos sem conta, e de homens sucessivos que, antes dele, haviam procurado decifrar a ordem escondida nessa massa de rocha.

O abade, que trazia consigo um pequeno caderno de papel grosso e pena aparada, começou a tomar notas diligentes, descrevendo a espessura das paredes, a largura dos corredores, a disposição dos vãos, como se desejasse reconstruir em planta a imagem do palácio perdido. Não lhe bastava contemplar; queria, com o auxílio das letras e das medidas, dar nova vida, em pergaminho, ao que o tempo tinha reduzido a ruína.

Em certo momento, deteve‑se em silêncio, abrigando‑se numa sombra escassa, e deixou que a imaginação povoasse aquelas salas vazias: via sacerdotisas de saias volumosas descendo por escadas de madeira, jovens acrobatas praticando saltos diante de um touro furioso, servos transportando jarros de argila por estes mesmos corredores agora cheios de pó. A brisa quente trouxe‑lhe o cheiro da terra, misturado com um leve odor de resina que vinha de tábuas recentes, e tudo isso lhe pareceu um sopro fugitivo do passado.

Ao abandonar finalmente o recinto, Dom Lourenço virou‑se uma última vez para contemplar o conjunto disperso de muros e passagens, brilhando sob a luz inclemente. Deixou escapar uma breve oração, pedindo que a memória dos homens não se apagasse tão facilmente como as tintas das antigas pinturas, e prometeu, a si próprio, enviar para Lisboa um relato detalhado destas maravilhas, para que os eruditos do seu reino soubessem que, muito antes das naus portuguesas cortarem os mares, houvera já, nestas ilhas do Oriente mediterrânico, um povo engenhoso que construíra palácios como labirintos e dominara a pedra, a madeira e a água com uma arte digna de admiração.

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