Diz-se, e quem o diz terá lá as suas razões, que na Mata do Fontelo repousa uma loba de bronze, bicho de metal plantado sobre a crueza da pedra, como se ali esperasse por um tempo que já não é o seu.
É a Capitolina, desgarrada de um monumento a Viriato que a posteridade achou por bem desmembrar, ficando a loba só, com as suas mamas de estátua, a olhar o verde dos séculos enquanto os homens passam, apressados, sem repararem que a história se faz também de pedaços que o vento não leva.
Ora, se o viajante buscar o lobo não na forma da fera, mas no rasto das palavras, terá de caminhar até ao Parque Aquilino Ribeiro, onde o mestre de Terras do Demo vigia o jardim, lembrando-nos que o lobo habita mais na alma do que no monte. Mas se a demanda for de recreio e algazarra, então as pernas deverão levá-lo à Toca dos Lobos, em Moimenta, onde o medo do animal se transmuta em riso de criança e os saltos são de brincadeira, prova provada de que o lobo, afinal, só morde se a memória se esquecer de o domesticar.
Assim se desenha este mapa de sombras e nomes, entre o Rio de Loba e a Serra da Nave, onde o bicho ibérico é pedra e é mito, vigiando uma Beira que teima em manter as suas lendas vivas. Que cada um escolha o seu trilho, pois entre uma estátua que não uiva e um parque que ecoa gritos de infantes, vai a distância que separa a pedra do sangue, o silêncio da vida, nesta terra de Viseu que, por entre pinheiros e granitos, ainda sabe contar histórias de dentes e de luar.


























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