Capela dos Ossos

Numa manhã em que o sol alentejano queimava as ruas estreitas de Évora como se viesse desde antes do mundo, acordei com um peso estranho no coração.

Como se tivesse dormido numa casa de pedras vivas onde os ecos dos séculos não me deixassem respirar. Foi então que decidi atravessar a praça até à Igreja de São Francisco e entrar na sua Capela dos Ossos, aquele santuário de silêncio e espectros feito de crânios e fémures, para confrontar o absurdo da minha própria existência.

Aquele corredor estreito, coberto exactamente por milhares de ossos humanos – cada um perdido na sua história antiga, reunido para recordar a transitoriedade da vida – parecia sussurrar nomes que eu nunca ouvira, nem jamais ouviria. A inscrição sobre a entrada ecoava na minha mente como um mantra triste: Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos.

Dentro da capela, caminhava-me a sensação de que a pedra e os ossos se moviam de leve, como se respirassem. Não era vento – ali dentro não há janelas que deixem ritmos de ar entrar. Era antes uma vida própria daquela sala sombria, iluminada apenas por uma luz difusa que parecia questionar-me se eu próprio era mais do que um monte de sentimentos à espera de morte.

Numa das colunas de ossos havia um crânio que me fitava com uma intensidade impossível, como se guardasse um segredo que só eu precisava saber. Cada vez que eu respirava, sentia como se ele me oferecesse pedaços de memórias -imagens de mim em outras vidas que eu não tinha vivido – até que aquilo começou a doer. Dói sentir imagens que não são tuas, pensei. Mas ninguém me ouviu, porque ali só se ouvia o eco do cosmos em silêncio.

Saí da capela por um instante e comecei a andar por ruas que me pareciam transformadas. A cidade de Évora, que sempre conhecera como discreta e antiga, parecia ter despertado duma noite demasiado longa. Cada calçada tinha a sensação de estar viva, a vibrar com passos de pessoas que nunca passavam por ali. E pensei que talvez eu também já não fosse eu, mas um espectro entre mundos.

Voltei à Capela dos Ossos e encontrei um homem idoso sentado no canto, com um livro enorme nas mãos. Parecia que as páginas do livro estavam feitas de pergaminho de ossos, tal era a sua textura. Quando o olhei, ele levantou os olhos sem surpresa: “Sabes”, disse ele com voz grave, “aqui todos somos mestres e discípulos da morte. Talvez por isso ela nos fale com tanta clareza”.

Respondi com uma pergunta – algo sobre se a vida tinha algum significado no meio de tanta inevitabilidade. Ele sorriu e disse apenas: “A transitoriedade é uma forma de nos lembrar que estamos vivos, mesmo quando parecemos mortos”. E naquele momento percebi que, na minha confusão kafkiana de identidades, tinha esquecido o meu próprio nome.

Ao sair de novo para a luz, reparei que o céu de Évora tinha a cor de um poema inacabado – por vezes crua e violenta, por vezes bela até à dor. Senti o peso dos ossos outra vez, como se cada um deles tivesse sido uma palavra de um livro que nunca terminei de escrever. Talvez a capela fosse uma biblioteca de vidas esquecidas, pensei, e eu fosse apenas mais uma página perdida.

A dada altura, na minha caminhada por entre sombras e sol, percebi que não podia separar aquilo que era real do que era apenas medo de existir. Porque mesmo a beleza mais límpida das azulejarias e frescos que ainda restam na Igreja de São Francisco – aquela mistura de culturas e tempos que faz de Évora uma cidade viva – parecia apenas o reflexo de um espelho que me devolvia uma imagem fragmentada de mim mesmo.

E assim, no fim do dia, quando voltei mais uma vez à Capela dos Ossos, não encontrei mais o velho com o livro de pergaminhos nem o crânio que me fitara com intensidade. Restava apenas o eco da minha própria respiração, como se fosse um último convite à reflexão: talvez a morte seja apenas uma porta, e nós, os vivos, sejamos criaturas atravessando corredores de ossos, tentando encontrar sentido nas paredes do tempo.

Por

em

atualizado em

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PTPAC webmedia, 20 anos a fazer web