Meu caro Senhor Primeiro-Ministro,
Não sei se terá Vossa Excelência tido ocasião de contemplar, da janela fidalga de São Bento, o espetáculo tristemente épico que a tormenta Kristin ofereceu aos olhos magoados da nação. O vento, essa força democrática que sopra sem distinção sobre o rico e o pobre, varreu as ruas como quem varre um velho tapete cheio de poeira governativa. Parecia que a própria natureza, irritada com a inércia dos homens públicos, decidira ministrar uma aula prática de administração pública – levando telhados, cabos elétricos e promessas por igual.
Em outras eras menos apressadas, um ministro tocado de sensibilidade trágica teria visto nisto um símbolo: os alicerces do país, frágeis como os pinheiros de Leiria, voando com o primeiro sopro mais impetuoso. Mas hoje, meu caro senhor, a filosofia cedeu lugar à conferência de imprensa, e as palavras substituem a ação como o pó substitui o pão. Assim, um temporal torna-se apenas um expediente meteorológico, e não a metáfora cintilante da decadência nacional.
A população, entretanto, afoga-se – uns em águas pluviais, outros em descrença. Que diria eu, se não fosse português e sentimental, ao ver o povo molhado até aos ossos, pedindo contas a um Estado que responde com planos de contingência e sorrisos de gabinete? O país não carece de mais discursos nem de mais fotografias junto aos destroços; carece, sim, de uma energia moral que levante as casas e as almas.
Se Vossa Excelência me permite a franqueza, o governo moderno parece um daqueles guarda-chuvas de má qualidade que se vendem aos transeuntes nas esquinas lisboetas: bonito na vitrine, promissor no uso, mas que no primeiro vendaval se vira do avesso e deixa o cidadão entregue à chuva. Falta-lhe aço no centro e sinceridade nas costuras.
Desejaria eu, por amor à pátria e à boa literatura, que o senhor Primeiro-Ministro fosse o reformador que muitos esperaram – o homem que, em vez de culpar o céu, consertasse o chão. Pois governar, meu caro, é secar as paredes antes de explicar por que chove. E se o temporal Kristin foi terrível, pior é o temporal moral que lhe seguiu, em que cada ministro parece procurar abrigo em vez de socorrer o vizinho.
Deixo-lhe, pois, esta carta não como censura, mas como lembrança: a grandeza de um político não se mede pela calma com que fala às câmaras, mas pela firmeza com que enfrenta o caos. Que o vento lhe leve esta reflexão – e que, por uma vez, em vez de se reconstruirem estradas, se reconstrua o sentido do dever.
Com a estima de quem, mesmo do além, ainda ama Portugal,



























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