O Falso Nove da Economia e a Minha Tática para o Cristiano

Texto humorístico ficticiamente escrito pelo selecionador nacional, mister Jorge Jesus.

Começo por esclarecer a poeira tática que se levantou na semana passada nas arábias.

O Cristiano veio a público dizer que a equipa estava a jogar muito recuada, que o Mister não o deixava pisar os terrenos que ele gosta e que nos faltava audácia. Ora, audácia? Eu chamei o rapaz à parte e disse-lhe com o carinho de um treinador que educa um filho: “Ó Cris, tu até podes ter os recordes todos do mundo e um museu só para ti na Madeira, mas no que toca às dinâmicas do losango e à transição defensiva, o disco rígido aqui do Mister é que processa a informação. Tu no futebol és um Ferrári, mas eu sou o GPS.” O rapaz ainda não percebeu que exigir um bloco alto constante à equipa, aos 41 anos, com quarenta graus à sombra no deserto, é o equivalente tático a tentar arrendar um T2 na Baixa de Lisboa com um salário base: exige muito pulmão, mas a matemática do espaço-tempo simplesmente não bate certo.

E foi exatamente à procura de compreender como é que a matemática anda a bater certo com a vida real que, aproveitando a minha folga para respirar os ares da pátria, decidi descer ao relvado do povo português em pleno 2026.
Fui ao Mercado do Livramento, em Setúbal, sentir o pulsar do verdadeiro campeonato. Mal pisei a bancada do peixe, fui abordado em marcação homem a homem pela Dona Ermelinda, uma peixeira de gema que está a jogar na Liga dos Campeões da inflação, a fazer 90 minutos de avental sem direito a ir ao banco. O cenário de jogo dela é de uma complexidade assustadora: o robalo subiu de preço, a taxa Euribor esmaga-lhe o meio-campo e o carrinho das compras sofre de uma gritante falta de profundidade nas alas. Olhei para aquela banca de choco fresco e vi o retrato exato do nosso país: muito esforço físico, muita transpiração na recuperação de bola, mas pouquíssima nota artística quando chega a hora de pagar a conta da luz.

O Governo atual anda a jogar num 5-4-1 muito recuadinho, com medo de assumir o jogo, a tentar segurar o empate técnico contra a carga fiscal. Mas esquecem-se que para ganhar títulos não basta trancar a baliza; é preciso ter dinâmicas. Eu peguei num carapau, levantei-o acima da cabeça como se fosse o quadro magnético do balneário, e desatei a explicar às gentes ali à volta onde é que o Estado falha nas dobras. Disse-lhes eu, puxando dos galões da minha experiência tática: “O problema de Portugal não é a falta de qualidade individual do nosso trabalhador, é a falta de ideias nas bolas paradas da economia. Vocês têm de perceber que o dinheiro é como a bola: se a gente não tiver a posse dela e não souber ditar o ritmo de jogo, andamos o mês inteiro só a correr atrás dos juros e a levar baile do custo de vida!” A Dona Ermelinda acenava compulsivamente com a cabeça, com as mãos cheias de escamas, finalmente a compreender as linhas de rotura que teimam em faltar nos gabinetes de São Bento.

No meio da multidão que já se aglomerava num 4-3-3 de pura curiosidade, um jovem arquiteto — que agora faz Uber Eats para conseguir pagar um quarto exíguo em Arroios — perguntou-me como é que o Mister resolveria o garrote dos impostos e da habitação. Respondi de pronto, desenhando um esquema tático com o indicador no gelo pisado do salmão: “Meus amigos, não inventem! A tática é simples de se aplicar: o Estado tem de baixar a linha de pressão do IVA, abrir os flancos do investimento na construção e meter os bancos a jogar a trinco, a varrer os problemas das famílias em vez de entrarem a matar às canelas nos créditos! Se este país jogar no dobro do campo, com o triplo da intensidade fiscal, o português deixa de sofrer golos em contra-ataque a cada ida à caixa do supermercado!” O mercado veio abaixo. Aplausos de pé, peixeiras a atirar aventais ao ar, lágrimas nos olhos dos fornecedores. Parecia que tínhamos acabado de ganhar a Libertadores, mas com cheiro a coentros e mar a bater na doca.

Vim embora do mercado com a certeza absoluta de que o povo português percebe muito mais de pressão alta do que qualquer Ministro das Finanças em funções. Só lhes falta uma pequena afinação de balneário para serem finalmente campeões europeus do poder de compra: mandarem o Cristiano Ronaldo para o banco e meterem-me a mim a treinar a Autoridade Tributária.

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