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A Odisseia do Orçamento Familiar: Uma Viagem ao Fundo do Carrinho de Compras

Uma leitura hermenêutica sobre a crise da habitação e a sintaxe da sobrevivência na classe média.

Valter Hugo Mãe, o arquiteto da ternura literária e um dos nomes mais unânimes e comentados das nossas letras, decidiu trocar esta semana o recolhimento do seu gabinete de escrita por uma imersão telúrica na realidade crua de um hipermercado nos subúrbios de Lisboa. O escritor, conhecido pela sua capacidade única de extrair poesia do sofrimento humano e por abolir as letras maiúsculas para democratizar a dor, deparou-se com o verdadeiro Cabo das Tormentas do Portugal contemporâneo: a secção dos laticínios e o corredor do azeite. Enquanto os cidadãos comuns empurravam carrinhos com a angústia de quem calcula os juros da prestação da casa de cabeça, o autor observava o preço do queijo curado com a mesma solenidade com que se olha para um manuscrito medieval esquecido pelo tempo.

Rodeado por uma pequena multidão de leitores que compravam marcas brancas com o fervor de quem reza um terço, o escritor não se esquivou a analisar o peso esmagador que a crise da habitação e o custo de vida exercem sobre a alma nacional. Questionado por um jovem casal que tentava perceber se a literatura ainda consegue oferecer algum teto emocional num mercado de arrendamento inflacionado, o romancista ajeitou o seu olhar melancólico e ofereceu o seu habitual conforto metafórico:

“temos de regressar à infância das coisas mais simples, porque o amor é o único lugar onde o preço por metro quadrado não nos consegue expulsar.”

A multidão assentiu, embora uma senhora ao lado tenha confessado que preferia ver esse conceito aplicado à fatura do gás.

O percurso literário-comercial continuou em direção às caixas de pagamento, o verdadeiro purgatório da classe média. Ali, perante o bip implacável do leitor de códigos de barras que parecia ditar a sentença de morte do subsídio de férias, o autor foi confrontado com a crueza da contabilidade doméstica. Uma funcionária, reconhecendo o vulto das letras contemporâneas entre os pacotes de arroz e as latas de atum, perguntou-lhe se o futuro dos portugueses seria sempre escrito com contornos de tragédia. O escritor, num tom quase sussurrado que silenciou momentaneamente o tapete rolante, partilhou a sua mundividência:

“o coração de um povo mede-se pela dignidade com que carrega os seus sacos de plástico vazios de ilusões, mas cheios de esperança num amanhã mais leve.”

A comoção foi geral, interrompida apenas pelo aviso sonoro de “cartão recusado” na caixa ao lado. No final desta odisseia pela subsistência, ficou claro que a escrita sem maiúsculas do autor encontrou o seu paralelo perfeito na vida do cidadão comum. Afinal, perante a atual conjuntura económica, o português já percebeu que viver com o orçamento atualizado é exatamente como ler um romance de Valter Hugo Mãe: passamos o tempo todo a tentar poupar nos pontos e nos pontos e vírgulas para ver se o salário consegue chegar inteiro até ao fim da frase.

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