Pelas 17h12, um indivíduo em fato de mergulho tentou introduzir uma sardinha numa torradeira. Um pato tomou notas. Seguiu-se uma situação.
O Parque de Campismo da Costa de Caparica sempre foi o microcosmo perfeito da Portugalidade: tendas montadas ao contrário, chinelos desaparecidos misteriosamente durante a noite e um senhor que, desde 1998, afirmava estar apenas “mais uma semana” antes de regressar a Setúbal.
Foi precisamente neste cenário que o absurdo decidiu pedir estadia prolongada.
Ricardo Araújo Pereira encontrava-se junto à churrasqueira comunitária, concentrado numa tarefa de enorme responsabilidade nacional: convencer uma sardinha a não cair para dentro das brasas.
Usava um avental onde se lia “Mestre Internacional de Carvão” e tinha à sua frente um tabuleiro com vinte e sete sardinhas rigorosamente alinhadas por ordem alfabética.
Ninguém sabia como.
Nem sequer as sardinhas.
Foi então que surgiu Bruno Nogueira.
Vinha do lado das dunas montado num unicórnio insuflável de três metros, vestido com um fato de mergulho integral, um capacete de ciclista e dois coletes refletores.
Atrás dele seguia um pato.
Um pato verdadeiro.
Com ar de quem estava a ser pago para aquilo.
Ricardo observou a aproximação durante alguns segundos.
Depois voltou-se para uma criança que comia um Calippo.
— Tu também estás a ver isto?
— O pato ou o Bruno?
— Obrigado. Já me ajudaste imenso.
Bruno desmontou do unicórnio, abriu uma pasta de arquivo e retirou uma torradeira.
Ligou-a a uma extensão.
A extensão estava ligada a outra extensão.
Que estava ligada a outra extensão.
Que desaparecia no horizonte.
Sem dizer uma palavra, introduziu uma sardinha crua na torradeira.
Ricardo pousou lentamente a tenaz.
— Bruno.
— Sim.
— Porque é que estás a tentar fazer torradas de sardinha?
— Não estou.
— Ah.
— Estou a tentar perceber até onde vai a confiança das pessoas nos eletrodomésticos.
O pato assentiu.
Ricardo decidiu não perguntar nada sobre o pato.
Foi um erro.
Porque o pato aproximou-se da churrasqueira, retirou um pequeno bloco de notas do pescoço e começou a apontar observações.
— O pato está a escrever?
— Está.
— Sobre quê?
— Sobre ti.
— E eu posso ler?
— Não. É revisão por pares.
À volta deles, os campistas já tinham abandonado qualquer tentativa de compreender os acontecimentos.
Uma senhora estava a tricotar uma rede de pesca para um gato.
Dois adolescentes discutiam se um croquete podia ser considerado uma religião.
Um homem corria pelo parque inteiro a gritar que tinha encontrado uma tomada livre.
Ninguém lhe ligava.
Bruno colocou então umas barbatanas no pato.
O pato aceitou.
Ricardo não.
— Bruno, isso é um pato.
— Sim.
— Os patos já sabem nadar.
— Que mentalidade limitadora.
O pato partiu em direção às dunas com uma confiança desproporcional à sua dimensão.
Nunca mais foi visto.
Ou talvez tenha sido promovido.
Ninguém sabe.
Entretanto, Bruno abriu uma geleira.
Lá dentro encontrava-se um polvo.
O polvo usava óculos.
Ricardo fechou os olhos durante alguns segundos.
Quando os voltou a abrir, o polvo continuava lá.
— Porque é que há um polvo de óculos na tua geleira?
— Porque sem os óculos não vê bem.
— Claro.
— Não percebo qual é a dúvida.
O polvo parecia igualmente confuso com a pergunta.
Ao final da tarde, quando as sardinhas estavam prontas, os campistas reuniram-se para jantar.
Ricardo distribuiu pão.
Bruno distribuiu certificados de participação na realidade.
O polvo deu uma pequena palestra sobre estacionamento paralelo.
O pato regressou misteriosamente num Segway.
E ninguém achou estranho.
Porque naquele momento todos compreenderam finalmente a regra fundamental da Costa de Caparica:
não importa o quão absurda uma situação pareça.
Daqui a dez minutos aparecerá outra muito pior.
Foi então que Bruno tentou comer uma sardinha através do tubo de respiração.
E o pato pediu ketchup.



























Deixe um comentário