O Mistério do Marfim Polido: Martínez, o Grilo de Gravata e o Exorcismo Tático

Uma autópsia metafísica ao sistema nervoso de um clérigo confrontado com a aerodinâmica craniana e o misticismo do passe para o lado.

A Catedral de Tui estava imersa num silêncio tão espesso que era possível ouvir as placas tectónicas da Galiza a ranger. O selecionador nacional não entrou no confessionário; ele deslizou para dentro dele como um pinguim untado em vaselina tática, exalando um aroma a colónia de nicho e a otimismo corporativo. A sua careca era uma obra-prima da engenharia aeroespacial, uma cúpula de marfim tão obsessivamente polida e encerada que refletia os vitrais da igreja com a nitidez tridimensional de um ecrã OLED. Não havia ali um único folículo capilar rebelde que ousasse quebrar a aerodinâmica daquele monumento ao pensamento abstrato.

Do outro lado da grade, o Bispo Antonio Valín, um homem cuja única ambição na vida era terminar a digestão de um cozido em paz, limpou a testa. Esperava um pecador normal — talvez um tipo que tivesse cobiçado a ovelha do vizinho. Em vez disso, a penumbra devolveu-lhe uma voz que parecia um GPS programado por um instrutor de ioga catalão.

Padre, venho confessar uma profunda e inabalável… felicidade — sussurrou Roberto, e o reflexo da luz na sua cabeça calva projetou uma auréola perfeitamente circular na parede de pedra. — O meu pecado é a transcendência. Em Portugal, as pessoas sofrem de uma patologia estranha: querem golos. Mas o golo, Padre, não passa de uma interrupção violenta e egoísta no fluxo contínuo de um belo passe para o lado. Como eu costumo dizer: “O mais importante não é introduzir a bola na baliza, mas sim garantir que a equipa mantém uma comunhão espiritual com a relva durante noventa minutos.”

Foi neste preciso momento que as leis da física decidiram abandonar o Minho. Com a subtileza de um piano de cauda a cair de um helicóptero, surgiu Rui Santos. O comentador não usou a porta. Manifestou-se, de forma inexplicável, gatinhando pelo teto da catedral de cabeça para baixo, como a miúda do filme O Exorcista, mas mantendo o fato slim-fit e a gravata milimetricamente centrados pela força da gravidade.

— Mentira, Martínez! — rugiu o Diabo-Santos, suspenso sobre a brilhante cabeça do selecionador enquanto apontava um dedo acusador. — O que há no ar é um cheiro quase irrespirável a boicote! Isto não é uma confissão, é um atentado ao rigor analítico! Eu escrevo-te isto sem medo das palavras: o teu modelo faliu e tu estás a asfixiar o país com uma anestesia tática que faria adormecer um rinoceronte!

O Bispo Valín deu um salto tão violento que quase engoliu o próprio solidéu. Olhou para o teto, olhou para o chão, mas, para os seus olhos mortais, o espaço estava absolutamente vazio. Só via aquele homem elegantíssimo e calvo, de mãos postas, a olhar fixamente para um crucifixo como se estivesse a analisar se Jesus Cristo daria um bom ala direito no esquema de três centrais.

Padre — continuou Roberto, ignorando o comentador que agora fazia flexões de braços no candelabro central —, o ambiente no balneário é de uma doçura angélica. Eu disse aos rapazes: “Temos uma flexibilidade tática tão maravilhosa que, se o adversário nos atacar, nós podemos simplesmente fundir-nos molecularmente num abraço coletivo e tapar a baliza com o poder do amor.”

— Isto é demência desportiva! — berrou Rui Santos, materializando-se agora dentro do próprio confessionário, espremido num espaço impossível entre o selecionador e a parede. — Há um divórcio total entre a tua narrativa cor-de-rosa e o pântano criativo em que meteste a nação! O ar é irrespirável, Roberto! Estás a queimar os novos valores na fogueira das tuas vaidades estatísticas!

O Bispo Valín, em pânico absoluto, começou a hiperventilar. Ele não ouvia o comentador, mas ver aquele treinador, com uma careca a reluzir como um farol na noite e a debater-se num diálogo silencioso com o oxigénio, foi demais. O Bispo agarrou no balde da água benta e, num ato de puro desespero espiritual, atirou-o com força contra o selecionador.

O líquido sagrado atingiu o crânio de Roberto Martínez e, graças ao polimento perfeito, deslizou num efeito hidrofóbico espetacular, sem molhar o fato. O selecionador nem piscou. Olhou para a grade e comentou:

— Excelente circulação de fluido, Padre. Ganhámos a segunda bola.

Gritando em latim e convencido de que tinha acabado de encontrar o próprio Anticristo com acabamento em teflon, o Bispo Valín despiu a batina, saltou pela janela e correu em ziguezague em direção ao rio Minho. Roberto Martínez limitou-se a tirar um bloco de notas do bolso e apontou que aquela tinha sido a desmarcação sem bola mais vertical e agressiva que vira em todo o ano de 2026.

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